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Galípolo: fatia da dívida pública atrelada à Selic pode dificultar trabalho do BC

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19 Mai (Reuters) – O presidente ⁠do Banco Central, Gabriel Galípolo, indicou nessa terça-feira que a dependência do governo ⁠brasileiro de uma participação elevada de títulos atrelados à Selic na composição da dívida pública pode ‌dificultar o trabalho da autarquia para controlar a inflação.

Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo afirmou que esse fenômeno particular do Brasil faz com que elevações da Selic pelo BC aumentem a remuneração dos ‌detentores desses títulos –Letra Financeira do Tesouro (LFT).

‘Hoje nós temos 50% da dívida soberana ‘linkada’ à Selic… Quanto mais eu subo juros, mais renda o detentor de LFT tem’, disse, indicando que uma elevação na renda dos detentores pode atuar contra o trabalho do BC de arrefecer a atividade econômica para controlar a inflação.

Em março, a dívida pública federal tinha uma fatia de 47,7% de títulos atrelados à Selic em sua composição, segundo dados do Tesouro Nacional.

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A taxa Selic está atualmente em 14,50% ⁠ao ‌ano, enquanto o BC faz uma calibração dos juros com cortes graduais e promete encerrar o ciclo ainda em ⁠nível restritivo.

O presidente do BC acrescentou que o país tem registrado resiliência econômica, desemprego baixo e crescimento da renda dos trabalhadores acima da inflação apesar de juros ‘bastante restritivos’.

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‘Toda vez que a gente tem esses indicadores mostrando uma economia que está bastante aquecida, com a demanda pressionando a oferta, e isso vem colocando a inflação mais distante da meta… a resposta que é demandada ao BC é colocar a taxa de juros ​num patamar mais restritivo para tentar devolver a inflação à meta dentro do horizonte relevante’, disse.

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CHOQUES

Na apresentação, Galípolo avaliou ser ‘normal’ que choques de oferta gerem aumento das expectativas de inflação no curto prazo, mas chamou atenção ​para o fato de que as projeções de mercado para 2028 também estão aumentando, algo que não deveria acontecer apenas em decorrência dos choques.

Segundo ele, dois choques de oferta estão impactando a economia: o do petróleo, em meio à guerra no Oriente Médio, e o do El Niño.

‘Também estamos vendo desancoragem das expectativas de inflação para 2028, que não deveria acontecer considerando apenas os efeitos dos choques atuais’, afirmou Galípolo aos senadores.

Desde o início da ‌guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro, ​as expectativas de inflação no Brasil estão subindo, na esteira da disparada dos preços do petróleo no mercado internacional.

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No boletim Focus divulgado pelo BC na segunda-feira, a mediana das projeções dos economistas para a inflação em 2026 está em 4,92% e para 2027 em 4,00% — bem ⁠acima dos 3,91% e dos 3,79% projetados antes ​da guerra, respectivamente.

Tem chamado a ​atenção dos dirigentes do BC, no entanto, o fato de as expectativas para 2028 também estarem aumentando. No último Focus, a projeção de inflação ⁠para 2028 estava em 3,65%, contra 3,50% de antes da ​guerra.

A meta de inflação perseguida pelo BC é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

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Ao tratar da inflação, Galípolo pontuou ainda que a média dos núcleos de inflação acompanhados pelo BC está atualmente nos mesmos níveis da inflação ​cheia. No mercado, há discussões sobre eventual vantagem em se adotar um núcleo de inflação — que exclui preços mais voláteis — como referência para cumprimento da meta, e não necessariamente o indicador cheio ​do Índice Nacional de Preços ao Consumidor ⁠Amplo (IPCA).

BC ASFIXIADO

Ao defender novamente que o Congresso Nacional aprove a autonomia financeira do BC, Galípolo afirmou que a autarquia perdeu cerca de 1.300 servidores nos ⁠últimos dez anos, enquanto viu um salto no número de instituições financeiras a serem supervisionadas.

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Segundo ele, com poucos recursos, a autoridade monetária terá que começar a escolher o que cobrir com seu “cobertor curto”, e não conseguirá fiscalizar certas questões como deveria.

‘Meu receio é que o fato de o Banco Central não negociar seu mandato faça o Banco Central ser asfixiado porque não entra no jogo político’, disse.

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